terça-feira, 21 de julho de 2009

Fantome

É distante,

diferente,

triste,

só,

ser um fantasma.

Não fazer parte do (seu) mundo.

Apenas, vezenquando assombrar,

assustar.

Não ter pele,

não ter cor,

não ter som,

não ter toque,

não ter sabor.

Passar, fluido como o ar.

Invisivel como o ar.

Mas não necessário.

Não vital.

Não indispensável.

Ser soprado para longe.

Quando o que se quer é ser aspirado.

É distante,

diferente,

triste,

só,

ser um fantasma para quem ninguém reza.

Por quem ninguém reza.

O que não existe não existe.

Simples conclusão. Simples confusões.

Detalhes não existem para o que não existe.

Explicações não existem para o que não existe.

É distante,

diferente,

triste,

só,

não existir.

Não ser explicado.

Ser infinito, mas não explicado.

Ser infinito, mas não audivel.

Ser infinito, mas não tocável.

Ser infinito, mas cabendo, ajustado,

perfeitamente do lado de fora.

É distante,

diferente,

triste,

só,

ser um fantasma.

Não fazer parte do (seu) mundo.

Apenas, vezenquando assombrar,

assustar.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Eu queria essa tal de pele que todos falam.
Esses tais de dedos que todos tem, menos eu.
Esse tal coração.
Um que pulse forte, ou que apenas pulse.
Esses tais de olhos,
que de coloridos em coloridos só me mostram cinzas.

Não existe.
Se demora o toque, não existe o toque.
Se demora o olhar, não existe o olhar.
Se demora o beijo, não existe o beijo.

O que existe não demora.
Cobra, tem pressa, busca.
Penetra a pele em arrombos.
Derruba a porta sem ver se está aberta.

O que não existe sempre me engole.
Aperta o meu cérebro entre os dentes.
Extrai o suco do que sei de desejos.
Extrai o suco do que sei do gostar.

E me vomita.

quarta-feira, 24 de junho de 2009


Me vesti com trajes teus
Porque assim te tenho sobre mim
Saio à rua e ninguém vê
Que faço amor em meio às gentes
Que cheiro teu cheiro grudado em minha pele
Que meu riso não é de piada
Mas de gozo

Me vesti com trajes teus
Prá na distância te ter comigo
E por telepatia tocar onde quiseres
Enquanto pego o metrô
Ou subo as escadas
Ou desço as escadas
Ou corro a escada toda

Me vesti com trajes teus
E passo o dia
Num dia tântrico
Daquele jeito que ninguém pode saber
Porque enquanto não engravidar é virgem
Daquele jeito que passa longe da obrigação
De mulher moderna e liberada

Me vesti com trajes teus
Porque é bom
É sujo
É lindo
É como eu quero
Hoje e quando mais nos apetecer
Enquanto rio e gozo
Atentando pudores impunemente

sábado, 2 de maio de 2009

Pêssegos Maduros

Estava só. Sua única visão era a de um fragmento de dia ensolarado que se exibia mais além, pra lá dos vidros.
Ela estava fora do dia, mas o contemplava com um misto de respeito, uma espécie de alegria contida e certa raiva. Dali, do lado seguro, observava algumas poucas vidas. Nada fazia diferença: as vidas brilhavam mais além e nada parecia ter o poder de faze-las ultrapassar os vidros.
Estava imune às iluminações todas.
Um ar quente, pesado, envolvia tudo. Impregnava todas as cores, todos os sons.
Mais ao longe, via, os vapores criavam ondulações na paisagem. O chão tremia, os carros estacionados na calçada íngreme tremiam e aqueles tremores eram de loucura, ela sabia, porque o calor criava novas imagens, apenas para os olhares que carregavam a insanidade precisa daquela manhã.
Estava só. Sentada no chão de tacos gastos, fazia com os dedos desenhos distraídos na poeira. As costas retas apoiadas na parede, as pernas estendidas, os pés descalços. Os cabelos soltos e negros contrastavam com o azul vivo do vestido florido, como uma vegetação estranha avançando sobre um lago límpido tornando suas águas perigosas.
Observava com seus olhos distantes a parte do mundo que era emoldurada pela grande porta e pensava nos velhos encantamentos que aprendera há muito tempo.
A noite chegaria. Ela esperava.
Não havia vento naquela manhã, as folhas estavam todas quietas, como se também esperassem algo. Uma palavra sua, talvez.
Estava só e suas mãos, vazias.
Lembrou-se de quando era ainda uma criança, quando permutava por entre os dias leves, com sóis ou com águas, correndo por entre folhas ou flores ou pés de pêssegos carregados. De quando trocava de lugar manhãs e noites, com a irresponsabilidade dos recém-iniciados, pequenos feiticeiros criando estrelas, respirando todas as luzes. De quando ainda escondia-se atrás da velhas casa, tão muda agora, rindo tanto, sentindo tanto, pulsando tanto quanto um pequeno coração que dava vida às ruas, às cidades, aos mundos todos.
Estava só agora, entretanto. E esperava a noite que esconderia as marcas profundas em seu rosto. Então, sairia e seria bela, flutuando pelos sonhos daqueles que a esperavam, noite após noite, ansiando por algo que não fosse áspero, algo que não fosse brusco.
Esperavam pelo que apenas ela tinha a oferecer ao mundo quando fosse novamente a menina, por entre os pés de pêssego.

domingo, 29 de março de 2009

Um domingo qualquer

Um pedaço de sal e suor escorre a boca.
As bocas.
A ilusão da moleza das três da tarde.
Os telefonemas dados, a exclusão, o ignorar.
Fingimos, finjamos, olhares e beijos ultimos.
Eternos talvez.
Um dia acreditaremos.

E sempre falar do mesmo..
Sempre de.. e e..

E há a falta.. de conexão..
.............. de amor..
.............. de razão.

Novos encontros marcados,
beijos dados,
palavras espalhadas pelo vento,
e o tempo, e o espaço.
Perfurando paredes lisas,
duras e (...).

Uma vontede alheia,
uma corrosão alheia a tudo.
E coisas passam, e acontecem,
o mundo gira e giramos nele,
e a cabeça pesa num resto de coração.

Ilusões das três da tarde
de um domingo qualquer,
escondido atrás de memórias 
inexistentes, 
existentes num mundo perfeito.
Um mundo perfeito sonhado.
Sempre falado nos ouvidos surdos.

Ensurdeço ouvidos com um mundo sonhado.
Fico rouco louco e pouco.
E me repito nas mesmas metáforas,
eu sempre o mesmo [infelizmente].

Devo(te)(me) (o) tornar(te)(me) mais óbvio,
tudo deverá ser menos gritante,
tudo sempre deveu ser menos algo.
Os olhos menos olhos,
a boca rouca menos louca,
os pés menos encaixaveis,
encaixotaveis menos encaixaveis.

Se aproxima a hora que não domino,
a hora em que me afogo em futuros,
futuros que nunca existirão, 
a não ser em reticências e elipses.
A hora do final.

terça-feira, 24 de março de 2009

"Não sei ao certo o que há de errado, simplesmente o dia acordou assim meio doente. Meio morimbundo. Meio morto na verdade. As pessoas velam corpos sorridentes. Um corpo triste e sorridente, como todos os corpos desistentes. As pessoas nascem com infinitos interruptores, e dia após dia outra pessoa desliga um. Desliga um. E mais um. Dia após dia. É uma luta que já é perdida. Sinto a loucura a cada interruptor desligado. A paranóia, o desespero, o desassossego. Uma hora todos se apagam, ou já se apagaram. E a vontade é desligada junto. E as pessoas passam a ser apenas companhias indesejaveis, e nada mais pode ser acrescentado. E a única vontade é excluir todas de tudo o que tenha a ver com você. Matá-las todas, não, isso é absurdo, é muita gente, então apenas deixamos de ouvi-las, isso é mais facil. E você ainda vai em festas, abre o messenger, ri de algo que seja de bom tom rir, mas parece que nada mais te encosta. Talvez seja um momento em que você se dá conta, ou fica com a impressão, que tudo já foi dito, feito antes. Nada mais é novo. Você perde a capacidade de se surpreender com algo. A maior alegria e a maior desgraça parece algo que já aconteceu antes. E tudo é ciclico, e sempre tem alguém para repetir a mesma frase, fazer a mesma coisa, calar no mesmo momento, etc... Mas não é uma depressão, você continua se alimentando normalmente, trabalha, estuda, faz suas atividades. É um estado indizivel, de uma estranha e mórbida clareza, de que as coisas são apenas, apenas são. As pessoas apenas são. Os lugares apenas são. A bebida apenas é. O cigarro, o café, os barulhos. Tudo apenas é. E nunca deixa de ser, ou começa a ser outro. E você parece outro, mas é apenas ilusão, você também é apenas o que sempre foi e sempre será. As coisas perdem as cores. Tudo é cinza. Tudo é cinza."

Chico Xavier...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Sobre desejos



A lua era tão...
E o cigarro quente.
A fumaça externava,
e penetrava.
Um certo tipo de ritual tribal,
que nossos personagens faziam.
Somos muito tribais.
Canibais.
Liquidos.
Doces bárbaros.
E amargos in(palavra censurada).

(Fim censurado por falta de existência, a falta de existência é uma cruel censura, castração do que ainda não existe.)