Estava só. Sua única visão era a de um fragmento de dia ensolarado que se exibia mais além, pra lá dos vidros.
Ela estava fora do dia, mas o contemplava com um misto de respeito, uma espécie de alegria contida e certa raiva. Dali, do lado seguro, observava algumas poucas vidas. Nada fazia diferença: as vidas brilhavam mais além e nada parecia ter o poder de faze-las ultrapassar os vidros.
Estava imune às iluminações todas.
Um ar quente, pesado, envolvia tudo. Impregnava todas as cores, todos os sons.
Mais ao longe, via, os vapores criavam ondulações na paisagem. O chão tremia, os carros estacionados na calçada íngreme tremiam e aqueles tremores eram de loucura, ela sabia, porque o calor criava novas imagens, apenas para os olhares que carregavam a insanidade precisa daquela manhã.
Estava só. Sentada no chão de tacos gastos, fazia com os dedos desenhos distraídos na poeira. As costas retas apoiadas na parede, as pernas estendidas, os pés descalços. Os cabelos soltos e negros contrastavam com o azul vivo do vestido florido, como uma vegetação estranha avançando sobre um lago límpido tornando suas águas perigosas.
Observava com seus olhos distantes a parte do mundo que era emoldurada pela grande porta e pensava nos velhos encantamentos que aprendera há muito tempo.
A noite chegaria. Ela esperava.
Não havia vento naquela manhã, as folhas estavam todas quietas, como se também esperassem algo. Uma palavra sua, talvez.
Estava só e suas mãos, vazias.
Lembrou-se de quando era ainda uma criança, quando permutava por entre os dias leves, com sóis ou com águas, correndo por entre folhas ou flores ou pés de pêssegos carregados. De quando trocava de lugar manhãs e noites, com a irresponsabilidade dos recém-iniciados, pequenos feiticeiros criando estrelas, respirando todas as luzes. De quando ainda escondia-se atrás da velhas casa, tão muda agora, rindo tanto, sentindo tanto, pulsando tanto quanto um pequeno coração que dava vida às ruas, às cidades, aos mundos todos.
Estava só agora, entretanto. E esperava a noite que esconderia as marcas profundas em seu rosto. Então, sairia e seria bela, flutuando pelos sonhos daqueles que a esperavam, noite após noite, ansiando por algo que não fosse áspero, algo que não fosse brusco.
Esperavam pelo que apenas ela tinha a oferecer ao mundo quando fosse novamente a menina, por entre os pés de pêssego.
sábado, 2 de maio de 2009
domingo, 29 de março de 2009
Um domingo qualquer
Um pedaço de sal e suor escorre a boca.
As bocas.
A ilusão da moleza das três da tarde.
Os telefonemas dados, a exclusão, o ignorar.
Fingimos, finjamos, olhares e beijos ultimos.
Eternos talvez.
Um dia acreditaremos.
E sempre falar do mesmo..
Sempre de.. e e..
E há a falta.. de conexão..
.............. de amor..
.............. de razão.
Novos encontros marcados,
beijos dados,
palavras espalhadas pelo vento,
e o tempo, e o espaço.
Perfurando paredes lisas,
duras e (...).
Uma vontede alheia,
uma corrosão alheia a tudo.
E coisas passam, e acontecem,
o mundo gira e giramos nele,
e a cabeça pesa num resto de coração.
Ilusões das três da tarde
de um domingo qualquer,
escondido atrás de memórias
inexistentes,
existentes num mundo perfeito.
Um mundo perfeito sonhado.
Sempre falado nos ouvidos surdos.
Ensurdeço ouvidos com um mundo sonhado.
Fico rouco louco e pouco.
E me repito nas mesmas metáforas,
eu sempre o mesmo [infelizmente].
Devo(te)(me) (o) tornar(te)(me) mais óbvio,
tudo deverá ser menos gritante,
tudo sempre deveu ser menos algo.
Os olhos menos olhos,
a boca rouca menos louca,
os pés menos encaixaveis,
encaixotaveis menos encaixaveis.
Se aproxima a hora que não domino,
a hora em que me afogo em futuros,
futuros que nunca existirão,
a não ser em reticências e elipses.
A hora do final.
terça-feira, 24 de março de 2009
"Não sei ao certo o que há de errado, simplesmente o dia acordou assim meio doente. Meio morimbundo. Meio morto na verdade. As pessoas velam corpos sorridentes. Um corpo triste e sorridente, como todos os corpos desistentes. As pessoas nascem com infinitos interruptores, e dia após dia outra pessoa desliga um. Desliga um. E mais um. Dia após dia. É uma luta que já é perdida. Sinto a loucura a cada interruptor desligado. A paranóia, o desespero, o desassossego. Uma hora todos se apagam, ou já se apagaram. E a vontade é desligada junto. E as pessoas passam a ser apenas companhias indesejaveis, e nada mais pode ser acrescentado. E a única vontade é excluir todas de tudo o que tenha a ver com você. Matá-las todas, não, isso é absurdo, é muita gente, então apenas deixamos de ouvi-las, isso é mais facil. E você ainda vai em festas, abre o messenger, ri de algo que seja de bom tom rir, mas parece que nada mais te encosta. Talvez seja um momento em que você se dá conta, ou fica com a impressão, que tudo já foi dito, feito antes. Nada mais é novo. Você perde a capacidade de se surpreender com algo. A maior alegria e a maior desgraça parece algo que já aconteceu antes. E tudo é ciclico, e sempre tem alguém para repetir a mesma frase, fazer a mesma coisa, calar no mesmo momento, etc... Mas não é uma depressão, você continua se alimentando normalmente, trabalha, estuda, faz suas atividades. É um estado indizivel, de uma estranha e mórbida clareza, de que as coisas são apenas, apenas são. As pessoas apenas são. Os lugares apenas são. A bebida apenas é. O cigarro, o café, os barulhos. Tudo apenas é. E nunca deixa de ser, ou começa a ser outro. E você parece outro, mas é apenas ilusão, você também é apenas o que sempre foi e sempre será. As coisas perdem as cores. Tudo é cinza. Tudo é cinza."
Chico Xavier...
Chico Xavier...
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Sobre desejos
A lua era tão...
E o cigarro quente.
A fumaça externava,
e penetrava.
Um certo tipo de ritual tribal,
que nossos personagens faziam.
Somos muito tribais.
Canibais.
Liquidos.
Doces bárbaros.
E amargos in(palavra censurada).
(Fim censurado por falta de existência, a falta de existência é uma cruel censura, castração do que ainda não existe.)
domingo, 9 de novembro de 2008
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Amante telepático
Vislumbro o que a névoa esconde.
A névoa de suas palavras.
Tenho medo.
Imagino futuros de massinha.
Papel. E barro.
Tateio em corpos mortos,
seu corpo de vidro.
Tateio em outras bocas,
sua boca de vidro.
E beijo o asfalto
com a exatidão do vinho e do cigarro.
Sangro na terra e recebo um abraço
[que deveria ser seu].
O sangue molha o ar e o mundo.
Talvez você respire meu sangue nos seus suspiros
e sinta meu sangue quando encostar a terra.
Olho a estrela que imagino que você olha,
te toco, tateando seu labirinto.
Suas pedras machucam meus pés.
Minha cara enrubrece com seu soco mental.
Tranco-me em você.
Sou expulso por seus sorrisos distantes.
Me banho em fluidos meus
limpando as feridas que seus "talvez" me causam.
Respiro cansado do ar da noite
e me farto de um gozo triste.
De uma lágrima, que numa outra dimensão,
em que sou feliz com você,
não existe ou é quente.
Lembro um passado feliz que não tive,
em que uma mão que não existe me tocava apaixonado,
em que olhos verdes que não existem me tocava apaixonado,
num simples beijo de borboleta.
Estendo a mão ao meu Eu-feliz,
ele se esvai na realidade pontiaguda, cortante, sufocante e dolorida.
Fecho os olhos numa desistencia necessária.
Cansado,
morro nos braços eternos de um "sim" que nunca tive.
A névoa de suas palavras.
Tenho medo.
Imagino futuros de massinha.
Papel. E barro.
Tateio em corpos mortos,
seu corpo de vidro.
Tateio em outras bocas,
sua boca de vidro.
E beijo o asfalto
com a exatidão do vinho e do cigarro.
Sangro na terra e recebo um abraço
[que deveria ser seu].
O sangue molha o ar e o mundo.
Talvez você respire meu sangue nos seus suspiros
e sinta meu sangue quando encostar a terra.
Olho a estrela que imagino que você olha,
te toco, tateando seu labirinto.
Suas pedras machucam meus pés.
Minha cara enrubrece com seu soco mental.
Tranco-me em você.
Sou expulso por seus sorrisos distantes.
Me banho em fluidos meus
limpando as feridas que seus "talvez" me causam.
Respiro cansado do ar da noite
e me farto de um gozo triste.
De uma lágrima, que numa outra dimensão,
em que sou feliz com você,
não existe ou é quente.
Lembro um passado feliz que não tive,
em que uma mão que não existe me tocava apaixonado,
em que olhos verdes que não existem me tocava apaixonado,
num simples beijo de borboleta.
Estendo a mão ao meu Eu-feliz,
ele se esvai na realidade pontiaguda, cortante, sufocante e dolorida.
Fecho os olhos numa desistencia necessária.
Cansado,
morro nos braços eternos de um "sim" que nunca tive.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Desprezo e existência. Desprezo existência. Despreze existência. Os limites não são claros e o silêncio dói demais. O silêncio que não é silêncio, antes calasse meu pensamento. Que no silêncio grita. Seu nome. Que no silêncio some, se esvai em água de torneira, sal grosso e dor de olho. No pós olho, vermelho. Dor no pescoço. Preguiça na lingua. Falsa risada e repetição de musica. Mi. Nu. Tos. E o cachorro morde o rabo e fica dando voltas em si mesmo. Conversa fiada e espera das luzes piscantes. Que piscam nos lugares errados. Conversa fiada. A partir de um ponto me perdi do caminho e comecei a cuspir fogo, e a me queimar com o que queimava. Brasa no céu da boca. Reticências e coisas que não importam a ninguém.
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